As baboseiras da juventude
Luis Fernando Verissimo
Um apartamento de classe média. Sala e sala de jantar conjugadas. Uma mulher está arrumando a mesa para um jantar de quatro pessoas. Entra um homem carregando um pôster emoldurado do Che Guevara.
Mulher:
- O que é isso?
Homem (olhando em volta para ver onde colocará o pôster):
- Eu sabia que ele ainda estava aqui. Encontrei no armário do corredor, atrás do meu velho violão.
- E o que você vai fazer com ele?
- Com o Che? Pendurar na parede.
- Por quê?
- É só por hoje. Amanhã ele volta para o armário.
Ele segura o pôster contra uma parede e pergunta:
- Aqui, você acha?
- Você não me respondeu. Por que vai pendurar um pôster do Che Guevara na nossa parede, logo esta noite?
- O Mauricio era de esquerda. Fomos até contemporâneos, no diretório, mas de facções diferentes. Ele era trotskista. Nunca nos encontramos. Ou pelo menos ele diz que nunca me viu, lá.
- Você viu ele?
- Vi. Era um líder. Eu sabia que ele seria um vencedor. Só não imaginei que fosse no mercado de capitais.
- E você quer que ele pense que você continua de esquerda.
- Não. Claro que não. É só para dar um toque assim, sabe? Evocativo.
- Evocativo?! Deixa eu ver se entendi...
- Vou precisar de um pano de pó.
- Deixa eu ver se entendi. O Mauricio vem jantar aqui, hoje, para conversar sobre a possibilidade de você trabalhar com ele. Você mesmo diz que pode ser uma grande oportunidade. Que o Mauricio está cheio do dinheiro. Eu gastei o que não podia com este jantar, comprei até foagrá, que eu nunca vi mais gordo, a mulher dele é uma grã-fina grã-finíssima com cinco sobrenomes e um hífen...
- Onde é que tem pano de pó?
- E tudo isso vai acontecer nas barbas do Che Guevara, para vocês lembrarem os tempos de estudante, em que ele era da ala trotskista e você era da ala musical?
- E prego? E martelo?
- Carlos Augusto! E se eles não gostarem de ver o Che na parede? E se ele for um grande reacionário? Acontece muito. De trotskista a reacionário é um pulo que muita gente já deu. Que muita gente ainda está dando.
- Que nada. Eu conheço o Mauricio. É um cara esclarecido. Votou no Lula. Eu acho. Você vai me ajudar ou não?
- Você se deu conta que pode estar pondo em risco o sucesso deste jantar? O jantar não é para impressionar o Mauricinho e a daslusete? E se eles não entenderem o Che na parede? Pior, se eles acharem que você tirou o Che do armário só por esta noite justamente para afrontá-los?
- Você é que não está entendendo. Hoje um pôster do Che Guevara na parede não significa mais a mesma coisa. Podia ser um pôster dos Beatles, significaria o mesmo. Ou – taí – o retrato do Mao pintado pelo Warhol. O Mao do Warhol é propaganda política ou é só um quadro do Warhol significando nada? Com o tempo tudo vira pópi-arte. Se eu tivesse guardado uma das faixas com que a gente desfilava, no tempo das passeatas, poderia pendurar na parede hoje e aposto que o Mauricio daria boas risadas. E o significado seria o mesmo: nada.
- Mas seria um risco.
- E tem mais. Eu quero que eles notem e comentem o pôster do Che. Vou usar o pôster para levar a conversa para o lado que me interessa. Para o fato de que somos contemporâneos, com mais ou menos a mesma experiência, as mesmas desilusões e, no fim, abandonadas as baboseiras da juventude, o mesmo amadurecimento. E que poderemos trabalhar muito bem, juntos.
- Com o tempo tudo vira arte autopromocional.
- É, mas não esqueça que, se eu melhorar de vida, você melhora também. Me vê um pano de pó, um prego e um martelo?
- Quer um conselho?
- Não.
- Em vez do pôster do Che, pendure o seu velho violão na parede esta noite.
- Por quê?
- Ele é muito mais evocativo. Das baboseiras da juventude.
Domingo, 4 de janeiro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.